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28 de outubro de 2010

A organização política das mulheres de Caetanos de Cima: história, memória e lições

A organização política das mulheres de Caetanos de Cima: história, memória e lições[1]

Valneide Sousa[2]


O grupo de mulheres de Caetanos de Cima começou a surgir nos meados dos anos 70, quando o povo passou a se organizar através das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) para garantir a Reforma Agrária. Este foi um período de luta intensa para as comunidades, que se deslocavam quilômetros e quilômetros para buscar apoio junto às demais, ou espaços de formação. Sem transporte, longas caminhadas eram feitas a pé. Isso significava ficar longe de casa por muitos dias.

Tal situação não era bem vista pelos homens do Assentamento Sabiaguaba, e demais regiões, como uma ação para as mulheres, que deveriam estar cuidando da casa, dos filhos, dos afazeres “de mulher”.

Havia, sem dúvida, uma insegurança por parte do público masculino, pois muitos valores naquele momento estavam sendo discutidos sob a luz da Teologia da Libertação. Essa novidade de liberdade acirrava a curiosidade das mulheres de Caetanos e demais localidades que insistiam em participar das reuniões.

Por isso, foi também um momento de muita repressão por parte dos maridos, com “cenas” de violência familiar, dificultando a garantia do direito à liberdade daquelas mulheres. Para a sociedade local, passar um batom significava querer namorar, “botar chifres” no marido. Enfim, várias eram as interpretações absurdas nas quais se justificavam a repressão.

Outro fator que justificava o surgimento do grupo eram as situações de conflitos. Os homens sempre tendem a querer resolver os conflitos pela força física. Isso foi uma das razões pela qual esse período (anos 70) banhou o campo de sangue, com inúmeros mártires, principalmente pela força física de que dispunham os latifundiários contra aqueles que faziam a luta social.

Para os momentos de conflitos extremos, várias estratégias eram construídas e desenvolvidas. Uma delas era colocar na frente os grupos que, acreditava-se, não seriam violados. A seqüencia seria: primeiro as crianças, depois as mulheres e em último lugar os que usariam a força física, caso não houvesse sucesso nas tentativas anteriores de resistência. Foi um período muito difícil em que mulheres apanhavam dos capangas. Enfim de muita violência.

Como ir para a articulação, para as frentes de lutas desprovidas de conhecimento, despreparadas para o diálogo e sem compreensão dos seus direitos? A organização das mulheres então se tornou inevitável e necessária naquele momento.

Inicialmente o grupo começa como “grupo das esposas”. Nomenclatura esta que futuramente traria alguns problemas, pois as mulheres na comunidade questionavam a exclusão nas discussões de cidadania. Muitas das que estavam excluídas dos debates, também eram vitimas de diversas formas de exploração; desconheciam totalmente seus direitos como mulher, além de estarem expostas às doenças sexualmente transmissíveis, sem orientações, sem documento. Enfim, desprovidas de dignidade.

A organização em seu início também passou por outras dificuldades, pois não era compreendido que estas mulheres buscavam a igualdade de gênero, e sim dominar os maridos. Muitas naquele momento não tiveram forças de enfrentá-los e cederam à pressão. O desconhecimento de si mesma, do seu próprio corpo, a vergonha, a timidez foram fatores que marcaram esta época. Por isso, as reuniões eram fechadas, ocultas, o que reforçava ainda mais a desconfiança dos maridos.

Apesar de muita luta, as mulheres ficaram de fora dos direitos quando a terra foi garantida. Mulher não tinha direito ao título da terra, os projetos eram dos assentados/esposos.  Ela não podia nem mesmo assiná-los, na ausência do marido.

Por conta disso, muitas famílias ficaram sem casa, sem custeio agrícola, e não acessaram o crédito de investimento. Vale salientar que, no momento de pagar a conta estas mesmas mulheres que não podiam assinar os projetos, tinham obrigações, pois eram esposas dos assentados. Por isso as mulheres, cujos companheiros não aplicaram corretamente os recursos recebidos e/ou não puderam pagar, tiveram seus nomes inseridos na lista do SPC, ficando, por longos anos, impossibilitadas de resolver qualquer negócio. Essa situação foi até 2009, quando o INCRA assumiu as contas bancárias, por pressão do MST.

Anos mais tarde o grupo passa a denominar-se Grupo de Mulheres, pois outras demandas teriam de ser pautadas.

Ao questionarem seus direitos, as mulheres caitanenses se esbarraram na barreira dos deveres das ações associativas. Em 1988, a APAPAIS (Associação dos Pequenos Agricultores e Pescadores Assentados do Imóvel Sabiaguaba) é criada, e inicialmente algumas mulheres assumiram cargos dentro da diretoria, mas apenas para garantir o processo burocrático da mesma; para escrever as atas ou coisa desse tipo.

Havia uma resistência da parte dos homens para pagar a mensalidade da associação de suas esposas, embora o valor fosse irrisório. Como as mulheres não tinham acesso à renda e nem a compreensão do valor de seu trabalho em casa, isso era aceito com naturalidade, o que ia deixando-as sempre a margem social.

O medo da participação feminista foi alimentado ano pós ano. E este fato ainda persiste nas comunidades, mesmo nas que se reconhecem como politizadas. Este medo fortalece a crença de que as mulheres são incapazes de contribuir com a discussão; como se só quem entendesse de desenvolvimento fossem os homens. Crença como esta, fez com que uma associação como a APAPAIS, que rege o Assentamento Sabiaguaba ao longo de seus vinte dois anos, com onze diretorias eleitas até agora só tenha tido apenas uma gestão feminina. Este é um fato comum em outras comunidades.

Uma visão mentirosa, pois toda mulher sabe onde “o sapato aperta” e sempre há um jeito de se dizer “ai”. Esse “ai” que de uma forma ou de outra acaba sendo dito, revela nossa compreensão sobre o assunto desenvolvimento. E embora se conteste a frase feita “não há receita pronta” sempre repetida no momento em que mais se precisa de resposta e solução, se faz necessário reutilizá-la mais uma vez, ao falar da experiência feminista de Caetanos de Cima.

Em cada comunidade a luta tem suas características próprias, embora muito semelhante às demais. Assim como há também as possibilidades de inclusão das mulheres na participação comunitária. Como outros desafios entre tantos e tantos que temos, é certo afirmar que: tudo começa com o OLHAR. É PRECISO VER. OLHAR COM ESTRANHEZA a composição social, que está sempre muito “certinha”, “porque sempre foi assim, porque é assim mesmo”. É na provocação e quebra dessa ordem, que se constrói o novo.

Tem um artista que diz assim: “a mulher engana os dez”. Embora a frase seja usada para desqualificar as mulheres, é bom saber que tem coisas que só nós sabemos. Isso é poder quando se sabe usá-las e analisá-las para o bem comum. A mulher tem sempre um “jeitinho” de fazer com que as coisas dêem certo. Isso também deve ser instrumento na luta e organização das mulheres.

Ter consciência que esta luta É NOSSA, há de ser nosso OBJETIVO COMUM. Esperar que todas estejam juntas, organizadíssimas, isso é utopia. Porém, construir a participação das demais mulheres é dever de todas que estão engajadas, assim como, criarem momentos de inclusão. Isso faz parte das atividades de todo e qualquer grupo de mulheres. Mas o grupo precisa está unido, mesmo sendo pequeno.

Também esperar grandes conquistas imediatas, isso não existe! Há de se começar com pequenas iniciativas, mas, identificar os avanços e conquistas ao longo do processo. Valorizá-los, celebrá-los e mantê-los vivos é necessário. Isso representa o combustível da luta. As conquistas sociais são lentas, embora significativas e, às vezes, até pequenas diante dos esforços que foram feitos.

Ao rever o caminho feito, há de se ter o cuidado para não se ver só dificuldades. Isso desanima o grupo. Além do mais, o grupo há sempre que se questionar o porquê de estarem juntas. Rever os objetivos comuns e nunca perdê-los de vista. Reanimar as companheiras sempre, pois são tantas as influências negativas que as mulheres estão expostas e os inimigos usam de artimanhas diversas para confundir as companheiras e dispersar o grupo.

A divisão de responsabilidades e rotatividade dos cargos é imprescindível para o crescimento do grupo como um todo, e vai ajudá-lo a enfrentar qualquer situação.

Querendo ou não, quem é responsável pela organização familiar é a mulher. Organização esta, que parece fácil, mas não é, pois as mulheres para dar conta desta tarefa têm que ter conhecimentos sobre: economia, educação, afetividade, sociológicos, culturais, biológicos, terapêuticos, históricos, artísticos, culinários, sexuais e tantos outros que por si só, a lista já daria um próprio artigo. Mas a mulher dá conta de tudo isso com seu “jeitinho”, embora não seja visto e nem valorizado.

Portanto há de se ver a comunidade como uma grande família, que se não tiver este olhar feminista, se perderá. Isto está faltando em nosso contexto: utilizar estratégias diversas, pois o caminho se faz ao caminhar.

A avaliação dos passos de cada erro, de cada acerto não deve ser esquecida e nosso ideal nos dirá o que fazer e como fazer. E o principal é que o ideal comum há de prevalecer sempre. Em um grupo jamais deixará de existir diferenças, inseguranças, medos, desafios, que precisam ser superados. Mas nunca deixe a outra só, nossas fraquezas e diferenças pessoais deverão ser resolvidas entre nós. Quando houver necessidade de enfrentar os problemas, o IDEAL COMUM há de prevalecer.

 

Itapipoca, 21 de Outubro de 2010

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[1] Texto elaborado para apresentação das experiências das mulheres de Caetanos de Cima - Amontada-CE, em atividade de intercâmbio com as mulheres da Prainha do Canto Verde – Beberibe/CE, 29 de Setembro de 2010

[2]Educadora e militante do movimento comunitário de Caetanos de Cima.

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